FIM DO VERÃO, VOLTA AO SEDENTARISMO

Anualmente, a medida que o verão se aproxima, de outubro em diante, as academias, clubes e calçadões das orlas recebem enorme fluxo de indivíduos. O Serviço de Orientação ao Exercício - SOE, da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória, registra um aumento de aproximadamente 50 por cento nos seus quatro mil usuários mensais, neste período.

Com o fim do Carnaval e do período de férias de verão, milhares de pessoas começam a abandonar as práticas regulares de atividades físicas em que estiveram envolvidas desde o fim do ano passado, encerrando-se assim o que poderia ter sido o início de uma necessária mudança no modo de vida.....

Há centenas de anos, o ser humano usava poucos instrumentos de facilitação no seu dia-a-dia de caminhadas, transporte de cargas, atividades de busca e cultivo de alimentos.

Aquelas atividades implicavam esforços rotineiros que garantiam o condicionamento físico e psicológico necessários à sobrevivência.

Nossos antepassados, treinados de forma natural e compulsória, praticamente desconheciam as doenças hipocinéticas, causadas por pouco (hipo) movimento (cine) ou esforço.

A revolução industrial e tecnológica tornou a vida mais confortável: os esforços foram reduzidos através do uso de máquinas e a locomoção feita muito mais rapidamente, de forma passiva dentro de veículos.

Os últimos avanços da automação praticamente extinguem a necessidade de se despender esforços físicos durante tarefas cotidianas ou na realização do trabalho.

E que mal há nisso? Nenhum! O avanço tecnológico é desejável, crescente e inevitável. Permite à humanidade um grande ganho de qualidade e economia de tempo.

Porém, biologicamente falando, não estamos adaptados a essa nova situação. Estaremos sendo geneticamente projetados, por muitos milhares de anos ainda, para a vida nos “tempos da Caverna”. O nosso organismo está totalmente voltado para o movimento. Sem este, ele enfraquece, adoece e morre.

É absolutamente necessário que se introduza de forma artificial, atividades físicas ou esportes na nossa rotina. Uma atitude que compensa a vida sedentária a que somos submetidos hoje em dia. Um ato de higiene corporal, tão importante quanto escovar os dentes.

O exercício físico regular aumenta a taxa de renovação dos tecidos; retarda o envelhecimento; equilibra o metabolismo - colesterol, glicose, hormônios, etc.; controla a obesidade e pressão arterial; melhora a viscosidade sanguínea e absorção de oxigênio: fortalece o sistema cardio-respiratório, músculos e tendões; facilita a mineralização dos ossos; diminui as queixas de diversas dores musculares e lombalgia; melhora o humor; modula a auto estima...

Enfim, um verdadeira “faxina biológico-funcional”. Garantia de vida mais longa, e o que é mais importante: em grande estilo.

Logo, o desafio se coloca: desde o operário ao executivo, passando pelo funcionalismo público e de empresas privadas, donas-de-casa e aposentados. Realizar exercícios físicos regularmente, para promover a saúde, não só durante o verão, mas todo o ano, toda a vida!

Segundo dados da Escola Paulista de Medicina e Ministério da Saúde, o sedentarismo já atinge por volta de 70 por cento da população brasileira. Em termos de população acometida, possivelmente é o maior problema de saúde pública no país! Para efeito de comparação, outras sérias situações como tabagismo ou hipertensão arterial, acometem faixas de 10 a 30 por cento da população.

O indivíduo sedentário geralmente incorpora também péssimos hábitos, como alimentação inadequada, o mortal e infeliz vício do cigarro - diretamente associado à inatividade física. O resultado é uma breve, estressante e doentia existência. Implicando em enormes gastos com médicos, remédios e hospitais.

Os efeitos sócio-econômicos do sedentarismo são igualmente impressionantes!

O Jornal Americano de Saúde Pública relatou que o sistema médico hospitalar dos EUA conseguiu deixar de gastar 47,5 bilhões de dólares no ano de 1990.

Este fato está relacionado à população de 25 milhões de americanos que se exercitavam regularmente. Em tempo: não se trata aqui dos atletas da NBA ou do futebol (americano), mas de cidadãos comuns, de todas as idades, que exercitavam-se moderadamente para manter a saúde. Estes adoeceram três vezes menos, recuperaram-se mais rapidamente, usando menos medicações e internações. Daí a referida economia!

Ainda faltaram 32 por cento menos ao trabalho, suportando melhor o estresse ocupacional.

Falando em estresse, a Organização Internacional do Trabalho - OIT, o classifica como a principal doença ocupacional moderna, reduzindo consideravelmente a capacidade produtiva de uma nação.

A estreita relação do sedentarismo com doenças, principalmente as chamadas crônico-degenerativas (que surgem ou aceleram à medida que envelhecemos) e o estresse é bastante conhecida e comprovada. Diminuir a alta incidência do sedentarismo no Brasil é sem dúvida, uma das nossas urgências sanitárias!

A Organização Mundial de Saúde - OMS, enfatiza o perverso papel da falta de exercícios físicos no agravamento das doenças cardiovasculares, em publicação de 1993. Recomenda a priorização imediata da prevenção primária. Tradução: educação para a saúde, exercícios e bons hábitos de vida são muito eficientes e mais baratos que os tratamentos cardíacos, CTI’s e pontes de safena!

O Banco Mundial classificou o sistema de saúde canadense como o melhor do mundo em 1994. Considerando a relação entre custo, abrangência e eficiência do sistema. O Brasil, diga-se de passagem, não foi sequer citado no ranking.

O Canadá tem como um dos destaques do seu programa nacional de saúde o Participaction, iniciativa que consiste no incentivo ao esporte e manutenção da forma física através da mídia, em ação desde 1972. Os especialistas estimam que o Participaction foi responsável pela queda de um terço nas mortes por causas cardiovasculares, entre os canadenses na década de 80.

A tendência natural da população é a busca do movimento, quando dispõe de condições para fazê-lo. Fenômenos como o citado inicialmente neste texto, comprovam este fato. Caminhar, pedalar, dançar, e outros esportes, têm relação clara com satisfação e prazer.

A ação integrada da sociedade, envolvendo autoridades sanitárias, políticos, empresários e representações de classe é o caminho para alcançarmos a real massificação das atividades físicas e esportes, possibilitando a democratização dos seus benefícios.

Iniciativas para oportunização da prática de exercícios físicos nos locais de trabalho; criação de serviços públicos facilitadores, como o Serviço de Orientação ao Exercício Físico - SOE de Vitória, (considerado modelo); racionalizar e humanizar a relação trabalho/lazer; proporcionar descontos nas mensalidades dos planos de saúde àqueles que exercitam-se, não fumantes e que realizam regularmente as consultas preventivas, mobilização e valorização da educação física e desporto escolar; utilização de campanhas em veículos de informação de massa e outras iniciativas de sucesso aqui e em outros países, dependem, na maioria das vezes, principalmente de vontade política para implementá-las.

Evitar que o interesse da população, pelos esportes e exercícios físicos, limite-se a ciclos sazonais é seguramente um excelente negócio para o Brasil!

Significa, de uma só tacada, resolver um grave problema de saúde pública, elevar a qualidade de vida, o bem-estar social, a capacidade produtiva do país, enquanto impede-se que ocorram gastos evitáveis da ordem de bilhões de reais.

A OIT afirma que para cada dólar investido em promoção da qualidade de vida, sob qualquer forma, gera-se economia de quatro dólares no futuro. Através da diminuição dos gastos com assistência curativa em saúde e indenizações.

Uma visão inteligente e moderna, que inclusive possibilita o cumprimento do artigo 217 da Constituição Brasileira, que garante a todos o direito aos desportos e determina o dever dos poderes em fomentá-los.

Artigo que representa uma garantia de avanço humanístico importante. Que como muitos outros, esperamos não desapareçam durante a reforma constitucional atualmente proposta.

Luciano Rezende é médico do esporte e Vereador em Vitória.