Caso nadadora Rebeca Gusmão entrevista com Dr. De Rose


Fonte: O Globo On-line

16/11/2007
   

RIO - Conseguir flagrar Gusmão no exame antidoping estava se tornando um objetivo na carreira do médico Eduardo de Rose, uma das maiores autoridades mundiais no controle antidopagem. Em entrevista ao jornal "Folha de São Paulo", De Rose disse que já estava tentando "pegar" a nadadora há algum tempo e revelou que ele mesmo fez o pedido de exame para a Federação Internacional de Natação, que flagrou o doping da brasileira.

- Eu tinha de pegar a Rebeca. Não era questão de honra, mas de justiça. Não tenho nada contra ela, mas não acho certo nadar assim - disse o médico, durante o III Congresso Mundial da Agência Antidoping.
De acordo com De Rose, sua idéia ao solicitar o exame à Federação Internacional de Natação era tentar evitar que Rebeca Gusmão disputasse os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro.

- Por que pedi exame para a Fina? Porque o laboratório de Montreal é especializado em testosterona, tem o sistema mais sofisticado. Queria ver se evitava que ela nadasse, no Pan, para não ter de dar medalha e, depois, tirar medalha - disse o médico, para quem o Ladetec, laboratório da UFRJ que avaliou como negativo outros quatro exames antidoping da nadadora, não tem a mesma capacidade operacional de detectar do laboratório de Montreal.
Segundo ele, o corpo da nadadora brasileira é um bom exemplo de quem usa testosterona.
"Queria ver se evitava que ela nadasse, no Pan, para não ter de dar medalha e, depois, tirar medalha"

- Tudo o que a gente ensina aos médicos (sobre uso de testosterona), professores, ali está configurado (no corpo de Rebeca). Aumento de massa, aumento de performance, tudo está configurado.
O impasse no caso de 2006, no qual Rebeca também foi flagrada, é tratado com estranheza pelo médico. O julgamento deverá ocorrer só em 2008 na Corte de Arbitragem do Esporte.

- Não tinha nada errado em 2006. Eu fiz o exame, deu positivo, foi para a Fina e, não sei por que, nunca foi divulgado o resultado. Posso imaginar que houve alguma divergência entre a CBDA e a Fina, mas não sei qual.
Eduardo De Rose, que ainda espera provar a manipulação do exame de Rebeca, disse que a nadadora já estava sendo "marcada" por ele.

- No Pan, muita gente veio me falar sobre a possibilidade de a Rebeca estar dopada. Até meu netinho, de dez anos, me perguntou: "Você está cego?". Expliquei a ele que uma coisa é achar, outra é provar. Mais do que pegar quem ganha ou perde, a prioridade é testar onde você acha que está (o doping). Quando um atleta mostra mudanças radicais no corpo ou no rendimento, a gente bota uma marca. Foi o caso da Rebeca, eu já estava em cima.

Rebeca Gusmão alega que sofre de síndrome de ovários policísticos, o que provocaria uma produção de testosterona acima do normal para as mulheres. Para De Rose, a justificativa não é plausível.

- O resultado dos dois exames não é que ela tem testosterona alta. Montreal mostrou, sem margem de erro, que tem testosterona exógena, ou seja, não produzida pelo corpo dela.


Médica afastada deu treino de antidoping no Pan
O caso da nadadora saiu da esfera esportiva e foi parar na criminal, sendo investigado pela Delagacia de Repressão aos Crimes Contra a Saúde Pública (DRCCSO). No topo da lista de nomes a serem intimados a depor no inquérito conduzido pelo delegado Marcos Cipriano, a ex-diretora médica da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) Renata Castro pode ter de esclarecer mais do que a sua assinatura no relatório de controle e a presença como escolta de Rebeca Gusmão num exame de 12 de julho, véspera da abertura do Pan.

Escolhida pelo Comitê Organizador (CO-Rio) como gerente de dopingo do Pan, ela admite, numa carta de recomendações distribuída aos atletas e divulgada no site da CBDA em 23 de julho deste ano, que treinou todos os responsáveis pelos controles de antidoping da competição.

No texto, Renata diz que não estaria próxima aos atletas por ser "a responsável por todos os controles de doping de todas as modalidades". Mesmo assim, ela atuou como escolta de Rebeca na noite do dia 12. A médica, que pediu afastamento da CBDA, também receberá uma carta da Corregedoria do Cremerj cobrando explicações. Além de descredenciá-la da conferência da Agência Mundial Antidopagem (WADA), que começou nesta quinta-feira, em Madri, a CBDA desconvocou o técnico de Rebeca, Hugo Lobo Filho, da etapa da Copa do Mundo de Natação em Belo Horizonte, dias 23, 24 e 25 deste mês.